O governo da China reconheceu todo o território brasileiro como livre de febre aftosa. O anúncio foi feito nesta terça-feira (2), durante a visita do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, a Pequim.
A decisão encerra um processo de negociação entre os dois países que se estendeu por dois anos. Com o reconhecimento, o Brasil amplia as possibilidades de exportação de produtos bovinos e suínos para o mercado chinês, incluindo itens como miúdos e carne com osso.
A China é o principal destino das exportações do agronegócio brasileiro. Em 2025, as vendas do setor para o país asiático ultrapassaram US$ 50 bilhões.
Durante a visita presidencial à China, realizada em maio de 2025, os dois países assinaram um Memorando de Entendimento entre o Ministério da Agricultura e Pecuária e a Administração-Geral de Aduanas da China na área de medidas sanitárias e fitossanitárias. O documento prevê o fortalecimento do diálogo sanitário entre os governos e o avanço de negociações relacionadas ao setor agrícola.
O secretário de relações exteriores do Ministério da Agricultura, Luis Rua, afirmou à reportagem que o reconhecimento “é um marco histórico, fruto de muitas negociações e das boas relações entre os países”.
Rua destaca, de imediato, a possibilidade de exportar carne suína com osso e miúdos externos suínos de outros estados para além do estado de Santa Catarina que, até então, era o único estado que podia enviar esses tipos de produtos.
“Ainda teremos a facilitação do comércio de couro wet blue não sendo mais necessário o certificado sanitário internacional. Esse reconhecimento, conjuntamente com o recente reconhecimento para EEB, abre espaço também para avançar nas negociações para ampliação do escopo do protocolo de carne bovina, com eventual inclusão de produtos como carne bovina com osso e miúdos bovinos”, disse.
Em vídeo, o ministro da Agricultura, André de Paula, afirmou que o reconhecimento esteve entre as prioridades da agenda apresentada pelo governo brasileiro durante sua recente visita à China. O ministro relatou que participou de reuniões com autoridades chinesas, incluindo os ministros do Comércio e da Agricultura, nas quais o tema foi tratado como uma das principais reivindicações do Brasil.
André de Paula também informou que outros temas abordados nos encontros foram biotecnologia e fertilizantes. Segundo ele, o governo brasileiro mantém tratativas sobre essas áreas e poderá anunciar novos avanços relacionados aos temas em breve.
Repercussão
Em nota, a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) reforçou que o reconhecimento do território brasileiro como livre de febre aftosa pela China representa o encerramento de uma negociação conduzida ao longo de mais de dois anos.
Segundo a entidade, a medida é resultado do trabalho desenvolvido por produtores rurais, indústrias, serviços veterinários oficiais e instituições ligadas à defesa agropecuária. A associação destacou que o Brasil consolidou, ao longo dos anos, mecanismos de controle, vigilância e monitoramento sanitário para atender às exigências dos mercados internacionais.
A Abiec também ressaltou a atuação do Ministério da Agricultura e Pecuária e do Ministério das Relações Exteriores nas negociações com as autoridades chinesas. De acordo com a entidade, a decisão amplia a previsibilidade das relações comerciais entre os dois países e reforça a confiança no comércio de carne bovina.
“Para a cadeia da carne bovina, a decisão traz ainda mais segurança e previsibilidade para o comércio entre Brasil e China. Principal destino das exportações brasileiras do produto, a China desempenha papel fundamental para o setor, e esse avanço reforça a confiança construída ao longo dos anos, criando condições para o aprofundamento das relações comerciais e para a geração de mais oportunidades ao longo de toda a cadeia produtiva”, disse a entidade.
Já a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) afirmou que o reconhecimento após “longa e intensa negociação” deve representar novo avanço nas relações sanitárias entre Brasília e Pequim, com impacto direto nas exportações de carne suína.
De acordo com estimativas da entidade, a ampliação do reconhecimento para estados que possuem plantas habilitadas à exportação poderá resultar em um aumento superior a 40 mil toneladas anuais nos embarques brasileiros destinados ao mercado chinês. A expectativa é de impactos positivos sobre a geração de renda, empregos e entrada de divisas no país.
Até então, apenas Santa Catarina, que possui sete plantas habilitadas para exportar à China, era reconhecido pelas autoridades chinesas como área livre de febre aftosa sem vacinação. Com a nova decisão, Rio Grande do Sul, que conta com oito unidades habilitadas, e Mato Grosso, com uma planta autorizada, também passam a ser beneficiados imediatamente.
O novo status permite a exportação de produtos com maior valor agregado, como carnes com osso e miúdos externos, cuja comercialização é autorizada exclusivamente para regiões com esse reconhecimento sanitário.
A medida também abre caminho para futuras habilitações de plantas em outros estados brasileiros, ampliando o potencial exportador do setor.
“O reconhecimento de todo o território brasileiro como livre de febre aftosa fortalece a posição do Brasil como fornecedor confiável de alimentos e cria novas oportunidades para a expansão sustentável das exportações brasileiras. A medida reforça a elevada confiança sanitária existente entre Brasil e China e cria condições ainda mais favoráveis para o aprofundamento das relações comerciais entre os dois países, especialmente em um momento de crescente demanda global por alimentos seguros e produzidos sob elevados padrões sanitários”, disse o presidente da ABPA, Ricardo Santin.
(Colaborou Isabel Mega, da CNN Brasil)

