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Reaproximação entre Índia e China redesenha o equilíbrio global

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Duas potências titânicas da Ásia, Índia e China passaram anos numa linha tênue, entre a rivalidade aberta, com choques na fronteira e disputa por influência, e uma interdependência econômica que nunca chegou a se romper. Nas últimas semanas, porém, autoridades dos dois países iniciaram um descongelamento gradual das relações, ditado menos por afinidade e mais pela força da interdependência. O movimento ganhou passos concretos em abril, quando, pela primeira vez desde 2020, uma delegação de empresas indianas visitou a China, com encontros em polos como Xangai e Zhejiang, mirando parcerias em baterias e energia renovável. Os dois governos também avançaram na retomada de voos diretos e na facilitação de vistos de negócios, enquanto canais militares voltaram a operar para coordenar a retirada de tropas em áreas sensíveis da fronteira. Nova Délhi, por sua vez, flexibilizou parte das restrições a investimentos chineses, permitindo aprovação automática para participações de até 10%. Também se comprometeu a acelerar análises em setores que considera estratégicos, como eletrônicos e energia solar, um ajuste pragmático diante da dependência de materiais críticos e de um comércio bilateral em forte expansão.

Infográfico sobre a disputa entre China e Índia, destacando: 2,8 bilhões de população combinada; 155 bilhões de dólares em comércio bilateral em 2025; 12% de crescimento do fluxo comercial; mais de 100 bilhões de dólares de déficit comercial anual da Índia com a China; e Índia como 3º maior importador de petróleo do mundo

Como pano de fundo dessa reabertura figura um dado difícil de ignorar. O comércio entre Índia e China não apenas resistiu às tensões, como se expandiu. Em 2025, o fluxo bilateral atingiu 155 bilhões de dólares, aproximadamente 775 bilhões de reais, um aumento de mais de 12% em relação ao ano anterior. O avanço é puxado sobretudo pelas importações indianas de componentes industriais, eletrônicos e tecnologias ligadas à transição energética. O resultado é uma relação assimétrica, mas cada vez mais profunda: a China voltou a ser o principal parceiro comercial da Índia, impondo um déficit que já ultrapassa a casa dos 100 bilhões de dólares anuais. Em meio a gargalos em setores essenciais e à pressão por acelerar sua industrialização, Nova Délhi se vê cada vez mais obrigada a uma abertura ao vizinho. “A Índia reconhece que não pode ser competitiva em setores tecnológicos emergentes sem engajamento comercial com a China, dada a dominância de Pequim em áreas como terras-raras, produtos farmacêuticos e baterias”, afirma Richard Rossow, do Center for Strategic and International Studies, de Washington.

O restabelecimento diplomático, portanto, reflete uma convergência de necessidades. De um lado, Pequim busca amortecer os efeitos de uma desaceleração econômica prolongada após a pandemia, agravada por tensões comerciais com os Estados Unidos e por um ambiente externo mais volátil. Isso reforça o interesse em estabilizar relações com vizinhos e preservar mercados.

A metrópole Mumbai, centro econômico da Índia: meta de elevar fatia da manufatura no PIB para 25%
A metrópole Mumbai, centro econômico da Índia: meta de elevar fatia da manufatura no PIB para 25% (Indranil Aditya/NurPhoto/Getty Images)
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Do outro lado, a Índia tenta sustentar um projeto industrial ambicioso: elevar a participação da manufatura dos atuais 17% do produto interno bruto para 25%, meta central do milagre econômico prometido pelo governo de Narendra Modi. Ao mesmo tempo, a vulnerabilidade energética ajuda a explicar a reaproximação. O país do sul da Ásia é o terceiro maior importador de petróleo do mundo e o segundo maior consumidor de gás liquefeito, com forte dependência de suprimentos que passam pelo Estreito de Ormuz. A elevação dos custos de energia e as interrupções nas cadeias globais ampliam o risco de redução do crescimento. “Pequim enxerga a ordem global como instável, com as disputas com os Estados Unidos ainda sem solução, a guerra na Ucrânia em curso e as tensões no Indo-Pacífico em ascensão”, afirma Zhang Jiadong, diretor do Center for South Asian Studies da Universidade Fudan, da China. “Nesse contexto, a estabilidade regional passa a ser vista como uma prioridade.”

Interior da Índia: o fechamento do Estreito de Ormuz causa escassez no fornecimento de gás natural
Interior da Índia: o fechamento do Estreito de Ormuz causa escassez no fornecimento de gás natural (Anuwar Hazarika/NurPhoto/Getty Images)

A convergência, no entanto, avança sobre um terreno ainda repleto de fraturas. A convivência entre Índia e China foi marcada, ao longo dos últimos anos, por sucessivos embates na fronteira, com episódios de confronto direto e mobilização militar em larga escala ao longo da chamada Linha de Controle Real. O ponto mais crítico veio com o conflito de Galwan, em junho de 2020, que resultou em mortes de ambos os lados e rompeu o padrão anterior de contenção, inaugurando uma fase de violência recíproca. Desde então, apesar de mais de uma dezena de rodadas de negociações, a desmobilização tem sido apenas parcial. Ambos os países mantiveram e, em alguns casos, expandiram a infraestrutura militar em áreas sensíveis como Ladakh e Arunachal Pradesh, incluindo estradas, pistas de pouso e sistemas logísticos voltados para operação em alta altitude. Sob a liderança de Xi Jinping, Pequim passou a integrar a estabilidade fronteiriça a um plano mais amplo de projeção internacional, enquanto Modi endureceu o discurso doméstico em torno de soberania e segurança. “A relação permanece fundamentalmente marcada pela desconfiança”, afirma Tanvi Madan, pesquisadora do Brookings Institution, dos Estados Unidos.

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Infográfico sobre

Por trás das escaramuças está uma acirrada disputa por recursos, alimentada pela escala colossal das duas economias. Índia e China somam cerca de 2,8 bilhões de habitantes, mais de um terço da população mundial, o que amplia de forma exponencial a demanda por energia, água e matérias-primas. Essa pressão recai de forma direta sobre re­giões importantes como a cadeia do Himalaia, onde nascem rios que abastecem centenas de milhões de pessoas no subcontinente indiano. Projetos chineses de barragens e gestão hídrica no Tibete são vistos em Nova Délhi como um risco estratégico de longo prazo, tanto pelo potencial de controle de fluxo quanto pelo impacto em segurança alimentar e energética. Ao mesmo tempo, a corrida por minerais críticos, como terras-raras e insumos para baterias, e pela construção de infraestrutura em áreas remotas adiciona uma dimensão econômica à rivalidade. Nesse quadro, a fronteira deixa de ser apenas uma linha em disputa e passa a refletir a competição de duas potências por matérias-primas vitais. É uma tensão estrutural que ajuda a explicar por que episódios localizados têm potencial de escalar rapidamente.

Xangai: chineses dominam setor de terras-raras e tecnologias como as de placas solares e baterias
Xangai: chineses dominam setor de terras-raras e tecnologias como as de placas solares e baterias (DuKai/Getty Images)
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O entendimento também se insere em um jogo mais amplo de projeção de poder, no qual Índia e China disputam espaço além da relação bilateral. Os dois países ampliaram sua atuação em regiões como África, Sudeste Asiático e Oriente Médio, oferecendo financiamento, infraestrutura e parcerias tecnológicas a países em desenvolvimento. Em fóruns como o bloco Brics, essa convivência se traduz em uma cooperação funcional, voltada a temas como comércio em moedas locais e reforma da governança global, mas que não elimina a competição por liderança e influência. Ao reduzir tensões diretas, Pequim e Nova Délhi ganham margem para concentrar esforços nesse tabuleiro mais amplo, no qual a disputa é menos visível, porém mais determinante. A reabertura de canais, nesse sentido, não encerra a rivalidade, apenas a reorganiza em outra escala, em que interesses convergentes e ambições concorrentes seguem caminhando lado a lado. Pelo peso dessas duas potências, seus próximos passos exigem atenção. O que Índia e China fizerem a partir daqui tende a reverberar além da Ásia, com impacto sobre cadeias produtivas, de energia e o equilíbrio de poder global.

Publicado em VEJA, maio de 2026, edição VEJA Negócios nº 26

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